
Por Ernesto Marques
Há semanas protelo a tarefa a que me determinei: apresentar publicamente pelas redes sociais e pelos canais de imprensa que acolherem este texto, algumas faturas. É chegada a hora de despachar as “correspondências” para seus respectivos destinatários. No dia 10 de setembro, um sábado, a partir das 9 horas, a Associação Bahiana de Imprensa promoverá um bom debate sobre o papel do jornalismo na preservação do nosso patrimônio material e imaterial. É o primeiro de uma série de debates propostos pelo nosso colega jornalista Luis Guilherme Pontes Tavares, em reverência aos 200 anos da imprensa baiana.
Em junho reabrimos a ABI depois de seis meses em obras que visavam primordialmente modernizar a nossa Biblioteca de Comunicação Jorge Calmon. Tivemos apoio do governo estadual, através da Empresa Gráfica da Bahia, da Assembléia Legislativa e do banco do Nordeste e entramos com uma contrapartida – não prevista nos convênios – de quase 50% do total da ajuda oficial. Digo isso logo de saída por duas razões: primeiro, para mais uma vez agradecer a esses parceiros, e segundo, para reivindicar condição para fazer publicamente as cobranças que farei a seguir.
Temos um belo exemplo do que pode resultar a soma de esforços por um objetivo comum, e teremos muito prazer em receber quem quiser conferir. Mas é apenas um pavimento e ainda faltam mais sete, as fachadas e o calçamento. Todas as possibilidades de ocupação do prédio esbarram nos problemas que infelicitam todo o Centro Antigo de Salvador. Se tudo correr bem no debate de setembro, sairemos com muito mais dúvidas sobre como tratar o nosso Centro e o que fazer com ele. Nunca haverá consenso em torno de projeto algum, mas isso não pode justificar a não implementação de um projeto. Mas isso é pauta para o debate. Aqui e agora o assunto é outro: cobrança, apresentação pública de fatura de quem está em dívida com a Velha Cidade da Bahia.
A Arquidiocese de Salvador tem, somente na Praça da Sé, dois grandes imóveis fechados. O antigo Cine Excélsior e ao lado, uma bela construção em estilo barroco. Quando as atividades da Cúria Metropolitana demandaram mais espaço, a decisão foi investir na construção de um novo prédio, no Garcia. Antes disso a Rádio Excélsior da Bahia, também da Arquidiocese, que fez história num dos casarões da mesma Praça da Sé, migrou para o Garcia. Devo supor que há boas razões para justificar tais escolhas. E longe de mim ousar dizer o que cada proprietário deve fazer com seus imóveis – ainda mais em se tratando da Santa Madre... Agora cabe cobrar, perguntar sem ofender nem afrontar: qual o projeto para os dois imóveis? Não pode ser o abandono.
O INSS é nosso vizinho - da ABI - ocupa todo um prédio que lhe pertence. Muito próximo ao nosso Edifício Ranuldo Oliveira em data de construção e estilo arquitetônico, está a pedir manutenção pelo menos na fachada. O INSS não pode nem pensar em sair dali, e deve, cuidar bem da sua casa – nOOOssa casa, aliás. Ainda a este devedor, apresento outra fatura: não se pode conceber que o INSS mantenha sem uso uma grande área que já serviu de estacionamento, já no final da Ladeira da Montanha, chegando na Praça Castro Alves. Ora, estacionamento é um dos maiores problemas a resolver, pensando futuro do Centro Antigo. O INSS não pode manter aquela área fechada enquanto o Itaú/Unibanco, no velho cine Glauber (ainda mais velho Guarany), com cinco salas de cinema, galeria de arte, livraria, café e área para eventos, já se ressente da falta de público... Pela falta do básico! Mínimo do mínimo: onde estacionar com alguma segurança, iluminação satisfatória e presença ostensiva da PM – algumas faturinhas a mais. Sem isso virá o Fasano para o velho Edifício A Tarde? O Belíssimo Palace Hotel reabrirá?
Por fim, o Município – dito assim para cobrar Legislativo e Executivo na mesma fatura. Não pretendo cobrar investimentos, ações efetivas. Não por aceitar a dificuldade de caixa como justificativa para tudo, mas para fixar a cobrança num ponto específico. Outras cidades históricas mundo afora entenderam que proprietários de imóveis de valor\artístico, histórico e/ou arquitetônico, devem ter algum incentivo para estimular e criar as melhores condições para preservação dos imóveis e das pessoas que neles moram ou trabalham. E não adianta dizer que já existe tal lei por essas bandas se ela não for do amplo conhecimento público e severamente fiscalizada.
Não são poucos os prédios ao longo das avenidas Sete de Setembro e Carlos Gomes em estado adiantado de degradação. É visível pelas fachadas mal cuidadas, sujas e ameaçando largar algum pedaço sobre quem, por azar, estiver passando pelas calçadas estreitas e igualmente mal cuidadas. Sem falar nas caóticas e perigosíssimas instalações elétricas e ausência absoluta do mais rudimentar sistema de combate a incêndios. Se a mão de Deus for a explicação para ainda não termos chorado uma tragédia, rezemos ao Senhor! Fiscalização episódica, midiática, adianta tanto quanto não fiscalizar. Não previne acidentes nem garante a dignidade que o nosso Centro Antigo precisa para manter-se vivo e dinâmico.
*Ernesto Marques é radialista, jornalista e vice-presidente da Associação Bahiana de Imprensa






