
Por José Roberto Severino*
A quarta-feira de cinzas encerra o carnaval, dando início à quaresma. De herança medieval, o tempo cíclico faz parte do cotidiano das populações no hemisfério norte. No Brasil a quaresma segue o cânon do catolicismo, empenhado em banir o paganismo das práticas sociais. Em Santa Catarina, onde o catolicismo mantém feições herdadas dos colonos açorianos, não é diferente. Trata-se de um período de jejum, mas também de reuniões sociais ainda vivas. Uma delas é a Bandeira do Divino Espírito Santo (forte ainda nos Açores), com música, indumentária e ritos mantidos pelos habitantes do litoral e adjacências. Outra manifestação, esta não tão desconhecida, é a da farra do boi. É dela que me ocupo neste texto.
Como prática cultural, a farra está intimamente ligada à lida com o gado. Fato recorrente em todo o Brasil. Cavalhada, Bumba meu boi, Boi bumbá, Bois de Parintins, Boi na vara, Rodeios e toda a tradição dos tropeiros, vaqueiros e boiadeiros demonstra as fortes marcas na cultura das regiões brasileiras. Música, poesia, festas e brincadeiras que parecem não se esgotarem com a modernidade. E este dado é central para pensar a problemática que se coloca atualmente sobre a farra do boi. Se não é possível ver a farra do boi, herança cultural de tempos imemoriáveis, sem levarmos em conta a correlação como os seus equivalentes Brasil afora; não creio ser possível falar da temática nos dias atuais sem levar em conta as novas sensibilidades e percepções acerca da natureza, do meio ambiente, enfim, dos novos direitos estendidos aos animais.
O fato da polêmica instaurada não permitir o diálogo – imputação de crime a priori aos praticantes da farra, desqualificação da cultura local e dos nativos – produziu um efeito contrário ao esperado. Ao percorrer as áreas onde a prática da farra do boi era comum, pode ser observado um conjunto de situações que pode nos ajudar a refletir sobre o atual estado das coisas:
- em ambientes mais urbanizados, não há mais a prática da organização de farras;- Quanto mais interiorizada é a comunidade, maior a resistência ao abandono da prática;
- há uma polarização das posições, para além da prática da farra do boi, mas marcados pelo posicionamento frente a ela (nós nativos, simpáticos à farra X nós ambientalistas, novos moradores do litoral);
- ausência de alternativas validadas pelas partes, pelo ministério público e pelas forças de estado;
- ausência de debates públicos mediados e permitam traçar políticas públicas de consenso.
Enfim, convém ressaltar que a Farra do boi, incrustada em Santa Catarina durante dezenas de anos, ganhou visibilidade nos anos oitenta marcada pela espetacularização de sua violência potencial. Na ausência de qualquer contraposição consistente, as versões estigmatizantes transformarem tudo na mesma coisa. Num quadro de transformações pela qual passou a sociedade brasileira no mesmo período (urbanização crescente, ampliação das áreas habitadas, transfiguração do litoral como áreas privilegiadas e portanto mais caras) as práticas culturais foram engolidas ou ressignificadas. Ande questão será pensar o futuro de tais práticas, levando em conta os envolvidos. O professor Isaiah Berlin nos dá uma dica para pensar, quando fala em liberdade. Para o autor existem dois tipos de liberdade, a negativa e a positiva. Liberdade negativa é quando, ao invés de nos perguntarmos “ por quem devemos ser governados” ? Perguntamos “ até onde devemos ser governados”?
* José Roberto Severino é historiador e professor na Faculdade de Comunicação da Ufba.






