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O dia em que Salvador vai travar


Por Gusmão Neto

Dizem que notícia não se prevê. Mas como na Bahia tudo acontece, é possível fazer uma previsão para daqui a três anos. Salvador vai travar. Parece que vão ter seis jogos na Copa do Mundo por aqui em 2014 e quando esse dia chegar os jornais, sites, tevês e rádios vão anunciar: “Evitem ir às ruas hoje. A cidade está travada”. As notícias de trânsito vão predominar. A coisa é mais séria do que se imagina. Vamos fazer uma reflexão...

Diante de tudo o que se fala sobre mobilidade urbana, só podemos chegar a uma conclusão: governo e prefeitura estão realmente debochando e subestimando a inteligência das pessoas. Na verdade querem confundir a cabeça do cidadão ao colocar o foco apenas em uma suposta construção de um metrô na avenida Paralela. Como se fosse resolver o problema. Ainda que fique pronto (muitos duvidam), Salvador não se resume à Paralela. E o restante da cidade?

Caso coloquem um trem nessa pista de 17 km, será que isso agilizaria a vida de um município que tem quase 3 milhões de habitantes, cerca 4 mil pessoas por km²? Já convocaram diversas coletivas de imprensa para falar do assunto. Uma para dizer que o governo vai receber as propostas para decidir qual o melhor modal para a via. Depois outro encontro só para anunciar que já reuniu todas as ofertas das empresas interessadas em construir o equipamento. Muitas convocações e, no fim das contas, não tem nada garantido. Já virou piada, e piada de péssimo gosto. É irritante. Ninguém toca no assunto sobre obras estruturantes. Sequer lembram de uma simples passarela de pedestres aqui, ali ou acolá. Túnel, viaduto, mergulho no Iguatemi? Ah, aí também já é sonhar demais. O pseudo metrô da Lapa ao Acesso Norte nunca saiu. E os trens do Subúrbio? Entregues às traças e baratas. Mas deixa isso para lá.


Está funcionando, o marketing

Um certo dia, dois motoristas debatiam sobre mobilidade urbana e parei para observar. Eles também se resumiam a dialogar sobre a referida avenida. Um defendia o Bus Rapid Transit (BRT) e o outro os trilhos. Batiam boca mesmo. “Não, porque o governo disse que esse tal de BRT é coisa de lobista. Você não sabe das coisas. Eu sei pois assisto televisão, leio jornal, escuto rádio, e vi várias vezes o governador dizendo a respeito. Eu sei o que estou falando, rapaz. O metrô na Paralela vai ficar beleza”, dizia um taxista ao outro.

Essa conversa só comprovou que realmente o poder público está sendo eficiente em seu objetivo de mexer com a opinião pública. Conseguiram mesmo desviar o foco. Até taxistas, que conhecem como ninguém os problemas da cidade, caíram na armadilha. Parabéns para a equipe de marketing, que tem sido cada vez mais competente. Eles são bons mesmo, justiça seja feita. Ao menos esse departamento funciona.


O pior é que há projetos, e muitos

Só para registrar, me lembro quando comentei em uma roda de amigos, durante um evento informal, que estava pensando em rabiscar algum texto para comentar sobre esse desvio de foco e fui abordado por um membro do alto escalão da prefeitura, que estava presente. Ele me cortou: “Antes de você escrever esse seu artigo, conheça os projetos que temos sobre mobilidade urbana. São muitos”, arrematou o gestor que certamente lembrará se estiver lendo esse material. Entretanto, a discussão não é essa. É fato que existem muitos projetos a respeito disso, e há muito tempo, desde gestões anteriores. Mas também é fato que eles não saem do papel, e ninguém toca no assunto.

É de indignar o caboclo a informação de que algumas empresas deram de presente projetos milionários à prefeitura para ajudar a desafogar o trânsito na capital e nunca foi discutido. Uma certa construtora, por exemplo, se ofereceu a construir um túnel que seria um mergulho que se inicia da marginal da Avenida Tancredo Neves até o início da Magalhães Neto, um dos pontos mais críticos do tráfego na cidade, além de algumas passarelas. Isso já tem muito tempo. Para tocar o projeto, a prefeitura não precisaria desembolsar um tostão furado, porque a empresa se dispôs a fazer tudo. Em troca, a construtora responsável pede apenas um abatimento nos impostos. Mas não se sabe o motivo para o governo municipal recusar a oferta. Parece até que está nadando em cifrões. Os abelhudos comentam que prefeitura prefere fazer obra quando tem o controle do dinheiro para a intervenção. Como nesse caso não tem, está desinteressada. Ah, me faça uma garapa. Me despeço por aqui.

 

*Gusmão Neto é jornalista e diretor do site Teia de Notícias

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