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Por Maria Prado de Oliveira
“O vapor de Cachoeira não navega mais no mar... Nós queremos navegar...”. Os jovens produtores da FLICA – Festa Literária Internacional de Cachoeira - navegaram. E com a proeza dos grandes navegadores. Putzgrillo! Cultura: esse é o nome do barco de Alan Lobo, Emmanuel Mirdad e Marcus Ferreira. Quem embarcou na primeira FLICA vivenciou momentos deliciosos pelas águas literárias com desembarques musicais que não davam tempo para os inevitáveis enjoos de certas travessias (Orkestra Rumpilezz, BaianaSystem, Magary, Samba de Roda Suerdieck, Percussivo Mundo Novo e Clécia Queiroz). Detalhe: grátis!
A curadoria sensível (do escritor Aurélio Schommer) pautou mesas bem diversificadas, com veteranos de festas literárias (o criativo, de oratória teatral, Marcelino Freire foi um exemplo disso), passando por luxuosíssimas presenças (Nei Lopes, Fernando Morais, Ronaldo Correia de Brito, Luislinda Valois, Hélio Pólvora, Joel Rufino dos Santos, Reinaldo Moraes, Pedro Mexia, Bob Stein, dentre outros) até ótimos autores radicados na Bahia - uns de muito tempo e outros mais recentes, que propuseram outras abordagens, distantes de reducionismos, sobre processos criativos, distribuição e circulação da literatura. Com alguns deles me senti entre pares, ao menos nas falas sobre a verve literária e a repercussão do que publicam – Adelice Souza, Carlos Barbosa e Jorge Araújo deram show!
Inspirada também foi a participação e proposições para os debates do professor André Lemos na mesa “O Fetiche do Livro em Papel e o Meio Digital”. Há muito tempo, fora as falas deliciosas de Muniz Sodré, Marilena Chauí, José Antonio Saja e outros por aí, não ouvia um acadêmico discorrer de maneira tão interessante, sem “academês” mas com a profundidade e riqueza de oratória que eventos dessa natureza exigem.
Fiquei de terça a sábado (11 a 15 de outubro; a FLICA foi até 16). Assisti a quase todas as mesas. Talvez, a organização possa rever a repetição de um mesmo mediador em mais de uma mesa. Pode cansar, a despeito da diversidade de informações e conhecimento que esse mediador possa ter. Pode cansar a plateia e a própria pessoa que vai mediar. Do domingo, soube, pela poetisa Iolanda Costa, algumas notícias: calorosos embates entre poetas, com barulho, na mesa da manhã, “A Poesia Contemporânea – Homenagem a Damário DaCruz”. Justíssima homenagem ao filho de Cachoeira. Das duas últimas mesas da FLICA não tive notícias, mas, pelos temas e participantes, devem ter seguido por horizontes esclarecedores. “Escrachos, Escárnios e Pornografia – A Literatura Underground” e “Portugal, África e Brasil – Heranças e Afastamentos” fecharam a primeira FLICA. Clécia Queiroz deve ter feito todo mundo sambar no show de despedida...
Vapor de Cachoeira é o nome do blog do jornalista Jorge Ramos. Durante a FLICA, ele lançou o livro “O Semeador de Orquestras – História de um Maestro Abolicionista” sobre Tranquilino Bastos, no concorrido espaço Pouso da Palavra. Nessa ocasião, o jornalista e poeta Antonio Pastori me apresentou a Jorge - um prazer real. Esses eventos têm também esse poder benéfico de (re)aproximar pessoas. Vi e revi tanta gente. Além das mesas oficiais, a Fundação Pedro Calmon estava lá com a sua Biblioteca de Extensão (Móvel) tão bem coordenada por Gleide Machado. O próprio professor Ubiratan Castro, presidente da Fundação, contando histórias para crianças, de todas as idades, na praça. Que delícia... A Rede Bahia, no espírito das criações de Sérgio Siqueira (Mosaico...), montou a sua Casa da Rede e promoveu atividades artísticas paralelas, com artistas profissionais (Ricardo Bittencourt, Jackson Costa, Dody Só, Claudia Cunha – que cantora!... dos que eu pude encontrar e assistir...) e artistas amadores (alguns do povo da cidade), para adultos e crianças. A Berimbau Filmes, do atento e produtivo Péricles Palmeira, filmando tudo... Vi uma Filarmônica tocando o hino da cidade e os cachoeiranos cantando, honrados, como sempre. A senadora Lídice da Mata apareceu, a vereadora Olívia Santana também. Ambas, tradicionalmente, atuantes nas políticas públicas sobre as expressões artísticas. O Secretário de Cultura da Bahia, Albino Rubim, esteve na abertura do evento. Se havia outros políticos, ou outros cargos de Estado, não sei. Talvez houvesse e eu não conheça... A senadora Lídice, ao lado de Javier Alfaya, são precursores e constantes parceiros em lutas dos artistas da Bahia para decisões estatais nas instâncias legislativa, jurídica e executiva. A vereadora Olívia vem desenvolvendo ações louváveis.
Geralmente, mesas em eventos de pensamento são palcos de grandes polêmicas. Muitas vezes com partícipes elegantes e democráticos, outras com grosserias de quem não aprendeu o dever de casa com papai e mamãe. Fora um dos palestrantes que está vendendo milhares de livros (Leandro Narloch), e provavelmente continuará vendendo pois segue referendado pelos dez mais vendidos da famosa lista daquela revista, que disse coisas inacreditáveis e ainda citava as fontes tentando reforçar credibilidade, os debatedores não suscitaram “grandes brigas”. Ainda bem, ninguém agüenta mais indelicadezas gratuitas sob o pretexto das famosas e necessárias provocações em eventos de pensamento. Aliás, a mediação do professor Sérgio Cerviño Rivero na mesa “Páginas Baianas” e do diretor teatral Márcio Meirelles na mesa “História e Negritude” foram discretas e precisas. A propósito, a escritora Ana Maria Gonçalves nos salvou no dia seguinte à mesa daquele que está vendendo milhares, pontuando os equívocos históricos que ele está vociferando como verdade por aí. Como se os movimentos negros e indígenas precisassem para as suas autocríticas das obviedades que ele disse durante a sua fala.
A FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty –, evento que inspirou várias outras festas literárias pelo Brasil, caminha para a décima edição em 2012. A Fliporto – Festa Literária Internacional de Pernambuco - faz, em novembro de 2011, a sétima edição. Tomara que empresários patrocinadores, apoiadores, grupos de comunicação e organizadores da FLICA dialoguem sempre com elegância nos anos vindouros para que essa festa literária da Bahia tenha vida longa. Que a cidade de Cachoeira possa ter melhores estruturas em hospedagem e alimentação para os próximos anos, embora já existam lugares bem legais. Mas a tendência é aumentar o número de interessados a cada ano, assim como aconteceu com a FLIP. É preciso melhorar muita coisa. Que mais editoras baianas estejam presentes vendendo os seus títulos. E que autores independentes com obras em papel e/ou e-books também. Que mais escritores e artistas de todas as expressões possam estar em 2012. Que essa iniciativa não sucumba a interesses econômicos. O problema não é o dinheiro, mas a submissão total a ele. Arte é arte, organização é organização, dinheiro é dinheiro, literatura é literatura. Tudo pode ser ótimo se cada macaco estiver no seu galho! Que o acesso continue gratuito!
Da minha parte, FLICAndo, FLICArei... Putzgrillo!
*Maria Prado de Oliveira é artista (atriz), produtora cultural, escritora, com formação em Filosofia






