Fotos: Angela Natsumi/ Teia de Notícias
Por Gusmão Neto e Neire Matos
Dando segmento à série de entrevistas com os estreantes da política baiana, o Teia de Notícias conversou com um velho conhecido dos movimentos estudantis. Ele já liderou alguns grêmios de escolas, diretório acadêmico de universidade e foi até vice-presidente da União dos Estudante do Brasil (UNE). É daqueles de colocar o megafone na boca e fazer barulho. No entanto, Ademário Costa jamais disputou um pleito eleitoral. É o atual tesoureiro estadual do PT e quer agora uma cadeira na Câmara de Vereadores de Salvador em 2012.
Mas ele, por enquanto, nem pode dizer que é pré-candidato. O petista ainda disputa internamente ser o candidato exclusivo da nova tendência do partido que será criada com os antigos membros da Articulação de Esquerda. Apenas um será apoiado pelo grupo que tem a liderança dos deputados Valmir Assunção e Marcelino Galo em Salvador. Nesta conversa, Ademário diz que os vereadores de Salvador estão aprisionados ao capitalismo e completa: “A cidade foi sequestrada pelo poder econômico”. Ele admite que nem os próprios companheiros de partido estão livres desse aprisionamento. Leia a entrevista na íntegra.
Teia de Notícias: Você acha que os movimentos estudantis perderam força no Brasil?
Ademário Costa: Bom eu fui do grêmio da Escola Técnica da Bahia, depois da União dos Estudantes Secundaristas, do Diretório Acadêmico de Ciências Sociais da UFBA, também do Conselho Universitário da federal da Bahia, na sequência fui candidato à presidência da UNE, pelo PT e me tornei vice-presidente da entidade. Na minha geração já ouvia falar que não havia mais movimento estudantil forte e olhe que era uma geração com mobilizações importantes desde início da década de 60 até a luta contra a ditadura militar. Nós fomos responsáveis pelo aumento para a Educação de 5% para 7% no PIB, dentre outras coisas. Mas uma das nossas principais vitórias foi a cassação de Antônio Carlos Magalhães, em que nós dirigimos na Bahia em 2001 o movimento, quando eu era DCE da Ufba. Acho que a geração atual tem outros paradigmas, outros desafios. Outro dia, quando Lula recebia a medalha Doutor Honoris Causa, os estudantes da Ufba ocuparam a reitoria para exigir 10% do PIB para a Educação. Eu estava ali para prestigiar o Lula, mas mesmo assim fiquei super feliz com o movimento dos estudantes. Um dia desses os estudantes da Universidade de Roraima derrubaram o reitor. Há dois anos, os estudantes derrubaram o reitor da UNB (Federal de Brasília). Recentemente ocuparam a sede da USP. Além disso, na Bahia, eu acho que há uma reorganização no movimento de juventude, como aconteceu no Egito, Arábia, Espanha, Portugal, Inglaterra, Estados Unidos, Chile. Então dizer que a juventude e os estudantes não se mobilizam é não compreender que os movimentos passam a ter novos paradigmas e formas de se mobilizar.
Teia: Então você discorda que o movimento estudantil amolece para o lado do governo petista, que basicamente domina as mobilizações de segmento?
Ademário: Tem gente que diz que a gente (do PT) deveria perder a eleição para voltar com as lutas sociais. Acontece que a vitória de Lula em 2002 foi um fato inédito na história do país e esse ineditismo demorou um pouco para ser compreendido pelos movimentos sociais. Para se ter uma ideia, de 2002 a 2004, primeiro período do governo Lula, foi uma gestão diferente daquilo que a gente, do movimento de esquerda, imaginava. A primeira ação dele foi a reforma da previdência, e uma oposição por parte dos movimentos sociais. O que precisamos compreender é que a fome e o analfabetismo não vão acabar logo que se assume um governo. Então, durante um tempo, de fato, os movimentos ficaram com dificuldade de compreender esse processo. Agora, com a crise de 2005, quando o pessoal da direita tentou tirar o Lula do governo, foram justamente esses movimentos sociais que foram às ruas para mostrar que um impeachment de Lula levaria o país talvez a uma guerra civil. Naquele momento, as pessoas de mobilização começaram a entender que nenhum movimento sozinho faz uma revolução social. É preciso estar nas ruas, por isso que todos os anos as centrais sindicais vão às ruas para destacar isso. Veja que os professores da Bahia, que são da APLB, sindicato ligado ao PCdoB, fizeram greve contra o governo de Jaques Wagner. Então eu vejo que os movimentos se reencontraram aqui no estado. Agora é importante destacar que em algumas ocasiões é preciso se mobilizar a favor do governo. No projeto do Código Florestal, por exemplo, faltou mobilização. No novo código foram aprovados itens de interesse dos proprietários de terra e não o que foi proposto pelo governo, por isso que se houvesse mobilização não teria ocorrido isso.

Teia: Agora vamos ao ponto chave da entrevista. Por que só agora decidiu ser candidato?
Ademário: Eu nunca fui candidato. Esse debate aconteceu ao longo da campanha de Valmir Assunção (deputado federal) no ano passado, quando fui coordenador da campanha dele aqui em Salvador, onde teve 23 mil votos na capital sem ser natural daqui. Então a ideia partiu de pessoas e lideranças que estavam nesse processo e passaram a entender a importância do projeto. Toda minha vida foi ou no movimento social ou na construção de partido político. Então eu experimentei as duas faces e acho que agora estou preparado e maduro para representar minhas bandeiras na esfera parlamentar.
Teia: E como você avalia a atuação da Câmara de Vereadores de Salvador?
Ademário: A cidade foi sequestrada pelos grandes interesses econômicos. Acho que os interesses do mercado imobiliário, do transporte público, do mercado da saúde, da educação, enfim todos os mercados que têm como foco final o lucro, e não o serviço público de qualidade à população, eles acabam aprisionando politicamente os espaços legislativos. E isso acontece porque a campanha política no Brasil é muito cara e impossibilita que qualquer cidadão tente exercer essa função, porque se necessita de dinheiro para entrar na disputa. Então o poder econômico aprisiona os mandatos. A nossa Câmara de Vereadores está extremamente aprisionada pelos grandes interesses econômicos da cidade, vide o que foi a aprovação do atual PDDU (Plano Diretor), que não atende, de fato, aos interesses da população. Ele está exclusivamente voltado à reordenar o uso do solo de acordo com os interesses da imobiliárias da cidade. A minha visão sobre o Legislativo de Salvador é essa. Vejo um Legislativo aprisionado.
Teia: Então nesse aprisionamento que você se refere, está no meio a bancada do PT, seu partido...
Ademário: Eu acho que todos os partidos políticos sofrem a disputa do capital privado. Mas PT é um partido extremamente voltado às bases sociais, que tem voz dentro do grupo, tanto que o PT é o único do Brasil que tem eleição interna. Então eu digo que o PT é sim disputado pelo poder econômico, mas ao mesmo tempo é ligado ao social. Se o político atuar contrário às diretrizes do partido, ele poderá ser vetado de disputar a eleição seguinte. Resumindo, o partido não está fora de ser influenciado, mas ele tem uma raiz muito forte que faz com que ele tenha de prestar conta da sua conduta.

Teia: E você espera, de fato, mudar alguma coisa na Câmara?
Ademário: Nenhum parlamentar sozinho vai mudar a cidade. Os parlamentares daqui têm a mania de se apresentarem nos bairros como mini-prefeitos. ‘Ah que eu vou fazer a rua, vou fazer a escola, o posto de saúde, o esgoto’. E não é assim. Quem faz não é ele e sim a prefeitura. O vereador está ali para representar opiniões políticas que sejam de interesse daquela comunidade. Os parlamentares se comportam hoje como despachantes de obras e essa não é função dele. O vereador tem que legislar. Então tudo tem que mudar desde a campanha. Acho que uma campanha política já tem que dialogar com esse sentimento. Salvador tem uma massa que está carente de uma opinião política que não se apresente como clientelista, como o “toma lá, dá cá”. Então a postura tem que ser diferente desde a campanha eleitoral e eu espero ter essa capacidade de fazer o debate das ideias, das opiniões, que apresente uma cara nova para a política da cidade e que se coloque como uma alternativa do futuro.
Teia: Você entrará na disputa eleitoral justamente em um momento de turbulência interna na corrente que você pertence (Articulação de Esquerda, AE). Não acha pode sair prejudicado?
Ademário: A gente saiu da Articulação de Esquerda. Há alguns meses nós fizemos um debate político internamente na AE. Então todos os nosso militantes, aqui da Bahia, de Santa Catarina, Rio de Janeiro, Distrito Federal, São Paulo, Rio Grande do Sul, Sergipe, resolvemos fazer um debate sobre a tese de que a esquerda partidária deve fazer uma discussão mais ampla e não uma interlocução fechada, que acaba enxergando o mundo com viseira de burro. Esse debate nos mostrou que o PT precisa de novas interlocuções, por isso rompemos com a Articulação de Esquerda e estamos em um momento muito interessante que a construção de uma nova organização política. Nós não estamos em crise. Estamos em um período de renovação e nos dias 2, 3 e 4 de novembro estaremos em Brasília em congresso para definir nosso rumo.
Teia: E já bateram o martelo sobre o nome da nova tendência?
Ademário: Ainda não. Alguns já nos conhecem como “Inaugurar um novo período”, que foi justamente o manifesto que fizemos para fundar a antiga Articulação de Esquerda. Somos os membros da antiga AE, como os deputados Valmir Assunção e Marcelino Galo, além da secretária Lúcia Barbosa (Lucinha do MST), junto com o pessoal da Tendência Marxista (TM), que se dissolveu para se juntar a nós.
Teia: Aqui em Salvador, a nova tendência lançará quantos candidatos a vereador?
Ademário: Como temos uma característica de unidade política, nós não vamos ter muitas candidaturas. Teremos uma decisão política e lançaremos apenas um candidato a vereador. E esse que for escolhido terá o apoio integral do grupo.
Teia: Resumindo, você é o candidato exclusivo do grupo?
Ademário: Ainda não. Vamos decidir quem será o candidato até o dia 5 de dezembro. Eu estou pleiteando ser o candidato da organização. Ainda não sou nem pré-candidato a vereador, eu postulo essa candidatura.

Teia: Para finalizar, você é a favor que o PT faça uma aliança com João Henrique na eleição de 2012?
Ademário: Olha, o PT precisa ter muita responsabilidade porque é o partido do governo. Precisamos pensar na cidade e não em João Henrique. Precisamos entender como poderemos ajudar melhor a cidade de Salvador. Acho que estabelecer uma briga política com o governo municipal não ajuda a cidade. Entendo que o PT precisa estabelecer um pacto de governabilidade. É claro que vamos manter a posição crítica com aquilo que descordarmos. Uma coisa é a relação do PT como partido, outra coisa é a relação institucional com a Prefeitura de Salvador. Eu defendo que o Governo do Estado tenha uma boa relação com o Município e o PT precisa ajudar nisso.






