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Magary inventa moda, inventa ritmo e dança


 

 

“O Black Semba está apenas ocupando o espaço que é dele e contribuindo com a linguagem, com o conceito, com a dança, com as vestes. As pessoas ainda vão ouvir muito o Yeba! Yeba! nosso grito de guerra.”

O Teia de Notícias foi conferir o motivo de tanto sucesso de Magary Lord. O Lord negro da Bahia, que tem arrastado multidões aos seus shows regados a muito Black Semba, ritmo criado por ele mesmo e que tem caído nas graças da crítica musical. O Black Semba é um ritmo originário da cultura africana trazida à Bahia pelos escravos e que tem ditado a moda e o ritmo da capital baiana.

Magary Lord é musico formado dentro do universo percussionista, iniciou sua carreira como compositor no ano de 1994, quando montou um trabalho chamado “Válvula de escape”. O trabalho ganhou força devido às fortes raízes percussionistas do cantor, abrindo janelas para a criação de muitos swings, a partir de várias fusões musicais. Assim surgiu o Black Semba. Confira a entrevista.

Por Nádia Conceição

Teia de Notícias: Diante da sua trajetória dentro da música baiana, tem como você explicar o que é o Semba, sobretudo o que é e onde surgiu o Semba do Magary, que arrasta multidões aos shows?

Magary Lord: O Black Semba é uma mistura de Black Music influenciado por James Brown, Wilson Simonal, pelo Funk, o Soul Music e com a batida de Angola, que se chama Semba, o qual originou o Samba, que significa umbigada na língua dos escravos, que aqui chegaram ao Brasil. Posteriormente surgiu o Chula, o próprio Samba, o Repente, o Baião e todos os ritmos do Recôncavo. Essa nova e própria forma de se fazer música tem agradado a todos os públicos e ganhando força do mercado da música. Um bom exemplo disso é que temos músicas gravadas por Seu Jorge, Saulo Fernandes, que gravou o ‘Circulou’, Larissa Luz, do Araketu, que gravou ‘Joelho’, e assim temos despontado com esse trabalho que, graças a Deus, tem agradado multidões. Temos feito shows no Rio Vermelho, no Padaria Bar, e realizado um bonito trabalho com o Ylê Aiye.

Teia: A Black Music da Bahia, de certa forma, é marginalizado pela grande mídia, a massiva, e, muitas vezes, ela realiza uma espécie de boicote a artistas desse ritmo. Como você percebe ou explica a sua aceitação no mercado musical e midiático?

ML: Certamente é pelo cuidado que temos com a importância da música de raiz, com as batidas de raiz para trazer uma inovação com cuidado nas letras, que fala de mudança, que fala de amor, do cotidiano e, as composições do Magary, vêm trazendo essas verdades. Eu sentia essa necessidade, de mostrar uma coisa nova, de confabular novos projetos como o Black Semba, que deu certo e está sendo bem aceito devido à mistura dos ritmos.

Teia: A que você atribui o seu sucesso na mídia?

ML: Desde quando começamos sempre tivemos humildade, querendo mostrar nosso trabalho e hoje temos essa visibilidade, o sucesso e queremos muito mais na verdade, queremos abraçar esse sucesso, queremos mostrar essa música para unir negros, brancos, mulatos, cafuzos, mamelucos, queremos unir todo tipo de gente, de classes diferentes. Essa música veio para inovar, veio para podermos resgatar lá atrás nossas raízes. O importante é olhar a batida do agogô, pois hoje temos música eletrônica, que também está tomando um pouco do cenário, então para nós a batida é muito importante, a batida do atabaque, a batida afro, do atabaque do agogô, do Semba, do Chula, da linguagem de rua, agradecemos a todas essas influências.

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Teia: Um dos momentos mais marcantes dos seus shows é quando você canta com sua filha, Kalinde Mayara. Como é sentir que sua música está fazendo escola dentro da própria casa?

ML: Ela começou a se manifestar naturalmente na minha casa. Quando ela chegava da escola participava das minhas coisas e decorava as letras muito rápido. Ela tem grande participação e colaboração dentro de minhas composições, dentro de minha música, das minhas inspirações e dentro de tudo isso que está acontecendo com o Magary. Eu sempre gostei, sou muito família e meus filhos, graças a Deus, também seguiram a música, não porque eu a injetei e sim porque foi natural. Então eu sou muito feliz com isso, com a manifestação dela dentro da música e das pessoas gostarem muito. Ela é um Black Semba.

Teia: Nas redes sociais, como Orkut, Facebook, você também é sensação e também pivô de grandes discussões no quesito afirmação da estética da cultura negra na mídia massiva. Essa era sua intenção?

ML: Era, até porque eu trago na minha música a batida da percussão, essa coisa de África e, além disso, tive oportunidade de viajar alguns países africanos e trouxe um pouco da cultura de cada um desses lugares onde eu já passei. Então, a cultura e estética negra estão imbricadas na minha música, nessa trajetória. Outra contribuição que trago é da minha infância. Eu tenho 12 irmãos, eu sou o número 11, então eu ouvi todo tipo de música, boas músicas dentro de casa, com meus pais, meus irmãos, e como eu morava no bairro de Brotas, eu via os trios elétricos passarem som, em baixo, no Ogunjá. Eu fui influenciado pela boa música e esse bem estar é geral, pela estética, pelo meu jeito, é minha moda, é Magary. Magary inventa moda, inventa ritmo e dança.

Teia: Outra discussão levantada nas redes é que seu sucesso “repentino” pode acabar recriando outro Magary Lord, um distante dos fãs, seja pela agenda corrida, seja pelos preços dos ingressos dos locais em que tem tocado. O que você tem a dizer sobre isso?

ML: Esse é um efeito natural de um trabalho que tem dado certo, que está sendo consumido por todos os públicos e tem pessoas que já conhecem o Black Semba, dede o Alforria, de onde viemos, e agora estamos crescendo e esse crescimento é importante para o trabalho. Nós precisamos disso. Eu peço também que essas pessoas que já nos acompanham e que acham que tem muita gente, que não me deixem, que venham, me sigam. Estamos fazendo show no Padaria, que tem os preços diferenciados, mas continuamos fazendo shows no Pelourinho, na Liberdade, no Curuzu, no Parque da Cidade, a tendência é crescer. Com relação a mudar a tendência, acho que a nossa sempre será a mesma, porque já está criada e o ritmo consolidado, e agora só temos que inventar para melhor. Agora mesmo estamos confabulando um novo CD, o Magary Leve Leve, que vem com músicas novas e vamos continuar na mesma trilha. Não muda nada, não mexe em nada. Em time que está ganhando não se mexe.

Teia: Como surge a inspiração para suas composições?

ML: Eu costumo compor músicas que retratam meu cotidiano, sigo a métrica que diz “palavra tem poder”, então sempre dizendo que está bom, está legal. Busco às vezes músicas quando estou na ilha. Na ilha tem uma inspiração, estou na casa de minha mãe é outra inspiração, estou com os parceiros é outra inspiração. Componho também por encomenda, para clientes, por exemplo, agora tivemos a oportunidade de a Daniela Mercury conhecer o nosso trabalho e vamos compor uma música para ela inserir no novo CD, do mesmo jeito a Claudinha Leite, que encontrei no coquetel do Festival de Verão, e ela também está esperando música, ela está querendo uma música bem carnaval. Nós, a família Magary, nos preocupamos muito, pois estamos agregando todos os ritmos: axé, pagode, se juntando, porque o Black Semba é do povo, é de toda gente, de todo mundo e o que queremos é espalhar o ritmo. O Black Semba está apenas ocupando o espaço que é dele, como tem outros espaços para serem ocupados, além de estar também colaborando com a música de Salvador, com a música da Bahia, com a linguagem, com o conceito, com a dança, com as vestes, então estamos só colaborando com tudo isso mesmo e fazendo o que gostamos.

Teia: Agora você está trabalhando com músicas do CD “Escutando Magary”, e no dia 10 de dezembrio gravou o DVD. O que seu público pode esperar desse DVD?

ML: No DVD reunimos música do primeiro CD (Black Semba Bahia, 2007) e reunimos canções do Escutando Magary, do final de 2010, lançado em janeiro deste ano. Reunimos algumas canções pela importância, sendo que temos feito shows e as pessoas têm escutado, sabem quem é Magary, mas era preciso ter as imagens, então demos uma carreira e gravamos esse DVD. A partir dele as pessoas vão poder visibilizar o trabalho, para ver a dança, o jeito, com imagem, que é melhor e pra gente vender show.

Teia: Bem, agora você está com a agenda muito atribulada, sendo assim, quais os planos para o Réveillon?

ML: No Réveillon estaremos no Farol da Barra e tocaremos também no Curuzu, com o Ilê Aiyê.

Teia: Quais os planos para 2012?

ML: Em 2012 já vamos começar bem. Um projeto bem interessante que já estamos inseridos é o Festival de Verão 2012, que é um grande Festival onde são recebidos artistas de vários cantos do mundo e será uma experiência maravilhosa. É a primeira vez que vamos participar e estamos muito felizes. No Carnaval 2012 teremos o Trio Black Semba, só não sabemos ainda em qual circuito tocaremos. Isso é o começo, porque em 2012 vamos tocar muito Semba e as pessoas ainda vão ouvir muito Yeba! Yeba! que é o nosso grito de guerra.

* Colaborou Adriana Souza

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