Fotos: Angela Natsumi/ Teia de Notícias
O entrevistado da semana no Teia de Notícias é Paulo Mota, que tenta ser o candidato a vereador exclusivo da tendência do PT Esquerda Popular Socialista (EPS), a antiga AE. Ele concorre à vaga com Ademário Costa, que bateu um papo com o Teia na semana passada (veja aqui).
Paulo Mota, de 34 anos, já foi superintendente da Pesca do governo Lula, milita no Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações (Sintel) e é conselheiro do Esporte Clube Bahia. Ele já foi candidato a vereador em 2008, quando obteve 3,2 mil votos, mas não saiu vitorioso. Nessa entrevista, o político revela que já está em campanha, mesmo antes de viabilizar seu nome como o candidato apoiado pelos deputados Marcelino Galo e Valmir Assunção. Nos bastidores dizem que o clima interno na EPS está tenso, mas Mota assegura que não há conflito com o companheiro Ademário. O petista admite ainda que o governo do PT está estagnado no que se refere a assistência ao trabalho agrário, bandeira de sua corrente interna.
Por Gusmão Neto
Teia de Notícias: Em que pé está o processo para escolher o candidato a vereador da corrente interna do PT que você faz parte?
Paulo Mota: Olha, eu postulo ser o candidato do grupo. Dentro da corrente, estamos fazendo um debate para escolher o candidato. Eu acho muito difícil que a coordenação da corrente deixe de aprovar uma candidatura em Salvador. Eu fui o candidato da corrente na última eleição (2008) e tive três mil e duzentos votos. Faltou pouco para vencermos a eleição. Agora, as coisas começam a mudar porque já temos um deputado federal, um estadual e só nos falta ter um vereador na capital.
Teia: Então você já se considera o candidato escolhido desse grupo?
Paulo: Ainda não, mas já estou em campanha, circulando nas bases. Mesmo que você já tenha sido candidato outra vez, existe uma pressão das pessoas, das lideranças. Marcelino Galo tem inclusive me acompanhado nos eventos em várias comunidades e nós já estamos fazendo uma pré-campanha. Então estamos esperando para que sejamos escolhidos como o candidato da corrente.
Teia: Dentro da corrente EPS você conta com o apoio de quem?
Paulo: Na verdade vou contar com o apoio de toda direção. Ainda não teve um debate aprofundado sobre os critérios de escolha. Eu tenho, de fato, uma aproximação maior com Marcelino Galo. Mas, além disso, nós estamos rodando a cidade, debatendo os problemas da capital e tentando apresentar propostas de melhoria para a população. Eu tenho também acompanhado o nosso pré-candidato a prefeito Nelson Pelegrino. Então eu me coloco com mais condições de disputar as eleições, mas sem desmerecer os outros companheiros que também pleiteiam a vaga.

Teia: É verdade que existe um racha entre você e Ademário Costa, que também quer ser o candidato a vereador apoiado pelo grupo?
Paulo: Não. Ele é meu companheiro de longas datas. Eu fui presidente da Associação Baiana de Estudantes Secundaristas no momento em que ele foi vice-presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes). De lá para cá nós ajudamos a construir a Articulação de Esquerda, construindo o nosso crescimento no PT e em diversos movimentos sociais na Bahia e em Salvador. Então, o fato de ele se colocar como pré-candidato não desmerece o direito de poder ser, inclusive ele tem capacidade política para isso. Mas nós estamos tentando achar uma forma de resolver isso, de forma que garanta a unidade do grupo.
Teia: Só para esclarecer, como será feita a escolha do candidato? Haverá uma eleição interna ou será através de consenso?
Paulo: É claro que não teremos votação interna. Não faremos plebiscito interno pra definir isso porque é um desgaste desnecessário, mas vamos achar a melhor forma para escolher o nosso candidato. Estamos debruçados para bater o martelo. Eu sei que será de maneira que não cause danos para o grupo. Acho que só não escolhemos o nome ainda porque não encontramos a forma, a metodologia. Mas temos até junho do ano que vem para resolver.
Teia: Caso você não consiga se viabilizar como candidato apoiado pela EPS, mesmo assim tentará registrar a candidatura de forma independente?
Paulo: Boa pergunta (risos). A nossa ideia é sair com uma única candidatura. Sendo a minha ou não, continuarei fazendo o trabalho que sempre fiz, da mesma forma que foi na eleição estadual em 2010, quando ajudei a eleger Valmir Assunção e Marcelino Galo. O que está em jogo é que a Esquerda Popular Socialista precisa de um mandato parlamentar na cidade de Salvador para dar suporte à luta social, para fazermos o trabalho do gueto dentro da Câmara de Vereadores. Qualquer que seja o escolhido será um bom nome e irá representar bastante o grupo. Eu sei que estaremos unidos, se Deus quiser.

Teia: Como você avalia a qualidade das atividades na Câmara de Vereadores de Salvador, atualmente?
Paulo: Nós temos debatido dentro do nosso grupo no sentido de que os vereadores de Salvador acabam perdendo o sentido do seu verdadeiro papel. A gente observa que a Câmara sofre uma pressão cotidiana nos diversos setores econômicos da cidade e percebe-se que foram eleitos vereadores vinculados diretamente a algumas áreas. É muito comum ver parlamentares que são bancados pelo poder econômico. O pior é que o eleitor ainda elege aquele que não te representa. Então precisamos aumentar o número de vereadores vinculados à luta social, ao movimento sindical, à reivindicações de bairros, para que tenhamos realmente representantes do povo. Assim teremos uma Câmara mais atuante nos bairros e que pressione mais o Executivo para melhoria das comunidades.
Teia: E você acha que é possível vencer uma eleição, hoje em dia, sem apoio financeiro?
Paulo: É difícil. Eu mesmo fiz um documento sobre a reforma política que trata sobre essa questão do financiamento da campanha. Hoje se vence uma eleição através de dois vieses: Um é o lastro social que você representa e o segundo é o potencial econômico. Só para exemplificar, nós tivemos três mil e duzentos votos na eleição anterior porque tivemos um potencial no quesito lastro social, mas não tivemos o econômico. Hoje é fato que não se elege mais ninguém em cima de uma categoria, de uma comunidade. A campanha ficou uma coisa cara. E uma das coisas que mais encarecem uma candidatura é a boca de urna, que virou um grande mercado. Todo mundo bate, diz que é proibido, mas nunca encontram uma forma de coibir isso. Mas existem outras formas de deixar uma eleição mais competitiva, como a proibição do outdoor, que foi feito. Acho que deveriam proibir mais coisas, como adesivos de carro, pintar mura. Se o cara apresentar a candidatura somente com um panfleto e um santinho, você já diminuiria bastante o poder econômico e daria mais condição a quem aposta na militância.
Teia: Qual seria o seu primeiro trabalho na Câmara de Vereadores?
Paulo: Eu gostaria muito de fortalecer o debate sobre o transporte público da cidade. Esse é um caos, que estamos enfrentando. Está crescendo o número de carros nas ruas. Nós dobramos a frota na cidade em menos de oito anos. Ao mesmo tempo temos 4 mil ônibus rodando na cidade. Então isso nos causa um caos de mobilidade. Eu queria propor que fossem feitas estações de transbordo como a Pirajá e Mussurunga em dez pontos da cidade. Vou te dar um exemplo: tem ônibus que sai de Paripe até a Pituba. Ou seja, ele pega esse trajeto todo, engarrafa a cidade toda, e lotado de passageiros. Então, com as estações, o cidadão poderia descer na Calçada, que pegaria outro até a Lapa, que pegaria outro até o Iguatemi. Assim você diminuiria o número de ônibus rodando na cidade, principalmente no eixo econômico da capital, como é a região do Iguatemi. Então essa discussão deve ser feita, porque um sindicato de empresários (se refere ao Setps) não pode controlar a cidade.

Teia: Você se sentiria confortável com uma possível aliança do PT com o prefeito João Henrique em 2012?
Paulo: Eu acho que o prefeito João Henrique está fazendo uma gestão razoável. Todo apoio é bem vindo.
Teia: Mas o PT é o opositor mais ferrenho ao governo João Henrique, inclusive na condição de líder da bancada de oposição. Então será que isso não pode confundir a cabeça do eleitor?
Paulo: Nós temos feito uma oposição responsável. Tudo aquilo que é importante para a cidade, nós temos votado. Agora projetos que não são debatidos com antecedência, nós não apoiamos. Mas eu acho que João é uma figura importante nesse processo eleitoral, até porque estamos em um processo em que não devemos deixar voltar ao poder a oligarquia, que mandou na Bahia muitos anos.
Teia: O governo do PT atendeu as expectativas na Bahia com relação ao trabalho agrário, bandeira levantada pela tendência interna que você faz parte?
Paulo: Olha só. A responsabilidade maior é do INCRA, uma instituição federal. O governo do estado dá a assistência técnica a esse trabalho. Quando Marcelino Galo comandou o INCRA muitas terras foram desapropriadas para beneficiar o trabalhador do campo, mas de lá para cá o negócio desacelerou. Então precisamos acelerar isso aí porque temos muitas famílias desassentadas esperando por ajuda. Esperamos que os governos de Dilma de Wagner acelerem esse processo, porque o crescimento nessa área diminuiu nesse período, estagnou, parou.







