Falamos. Muitas falas suscitam outras ideias.
FALAS POSSÍVEIS traz um ator com dedicação absoluta à sua arte, onde o teatro, o cinema, a televisão e outras expressões encontram a entrega total do intérprete...
Senhoras e Senhores: Jackson Costa!
Foto: Yolanda Nogueira / Divulgação
LA - São mais de trinta anos de trajetória artística em teatro, cinema, televisão... Como é a tua experiência de ator brasileiro, radicado na Bahia, fora do Sudeste, onde ainda circulam mais oportunidades de trabalho, para viver da tua arte?
Jackson Costa - Maria, na verdade eu faço trinta anos de carreira no dia oito de fevereiro de 2014. Acontece que durante os primeiros seis anos de teatro em Itabuna, algumas pessoas me elogiavam e me aconselhavam a vir fazer teatro em Salvador. Eu ficava feliz com os elogios, mas não cogitava em sair de Itabuna, eu era feliz ali e sabia. Vim para Salvador porque Yolanda (LA – esposa de JacKson), que já era minha namorada, me aconselhou a fazer escola de teatro na UFBA, e que bom que eu a ouvi. A cultura de Salvador logo me encantou. Com apenas dois anos em Salvador, recebi um convite, do grande diretor Luís Fernando Carvalho, para fazer novela na Rede Globo e eu já me sentia um ator de Salvador, quando fui para o Rio ingressar na TV... De lá para cá já se vão 21 anos. Realmente, vive melhor (financeiramente) um ator radicado no Rio do que na Bahia, mas não consegui (com toda a dificuldade que você também é conhecedora) tirar o meu pé do chão baiano para me aventurar por terras estrangeiras, pois amo a Bahia. E assim venho me desdobrando entre o palco, a TV e o cinema, publicidade, Mestre de Cerimônia, poeta declamador e tudo mais que engloba o meu ofício, para manter acesa a chama do ator. E continuo feliz do jeito que sou.
LA - Salvador já oferece, na tua opinião, condições para artistas morarem aqui, exercerem os seus ofícios e para que possam manter intercâmbios com o Brasil e o mundo, ou somente alguns poucos conseguem isso?
Jackson Costa - Quando fui trabalhar no Rio pela primeira vez, tinha que estar morando lá, pois não era possível morar em Salvador enquanto fazia novelas. Hoje a realidade é bem melhor, pois é o quarto trabalho que faço na TV Globo, morando aqui. Esse espaço existe para todos e hoje na novela Gabriela, somos 16 atores baianos, quase todos morando em Salvador e gravando no Rio, vivendo semanalmente na ponte aérea Rio - Bahia. Isso nos dá mais visibilidade e consequentemente melhor condição de sobreviver sem ter que deixar de fazer teatro na Bahia e atuar pelo mundo adentro. A nossa realidade está melhorando, ainda não é o ideal mas é uma meta a perseguir e com a força que nós temos, conseguiremos condições ainda melhores. Mas é preciso encarar o teatro como profissão, geradora de fonte de renda, é coisa séria. Quem fica no oba oba, não vai muito longe.
A Pedra do Reino - Microssérie da Rede Globo dirigida por Luiz Fernando Carvalho / Divulgação
LA - Quais as tuas referências na arte da interpretação?
Jackson Costa - Um dia, no sertão da Paraíba, Fernanda Montenegro disse para nós atores, que estávamos nos preparando para encenar O Romance da Pedra do Reino (de Ariano Suassuna), para a TV Globo, que o ator quando atua, carrega, como referência, todos os atores e atrizes que ele já viu atuando. Isso me emocionou... E é a pura verdade. E pensando assim, hoje eu sou a continuação de Téspis, o primeiro ator que nós conhecemos na história do teatro. Mas deixando de lado a elucubração, minhas primeiras referências foram Carlos Betão, Ramon Vane, José Delmo, Eva Lima, Alba Cristina, Aldo Bastos e Gal Macuco, atores que eu conheci e com quem comecei. De lá pra cá, vieram Mário Gusmão, Jurema Penna, Nílson Mendes... E com eles, todas as teorias de Stanislavski, Augusto Boal, Artaud, Grotowski, Eugênio Barba, Peter Brook e Companhia ILIMITADA, por que as referências são infinitas. Bertrand Duarte, Harildo Déda, Elisa Mendes, Ewald Hackler, Maria Prado, Cacá Carvalho, Cyria Coentro, Maria Menezes, Echio Reis, Lázaro Ramos, Ricardo Bittencourt, Edgar Navarro e por aí vai... Maria Bethânia, Jorge Amado... Também conheci o maravilhoso teatro de João Augusto, através de José Delmo, antes mesmo de chegar em Salvador...
LA - No teu caso, como é conciliar, neste momento, teatro (Los Catedrásticos) e televisão em dose dupla (apresentação do programa Aprovado da Rede Bahia e atuação na telenovela Gabriela da Rede Globo)?
Jackson Costa - É a realização de um sonho. Se eu pudesse viver só de teatro, seria feliz. Se fizesse só TV ou cinema, por mais maravilhoso, me faltaria alguma coisa. Então, pra não me faltar nada, ou quase, me desdobro e assim, mais aprendo e ganho em dobro (o que dá pro sustento), e através das diversas linguagens é que eu venho sobrevivendo. O bom é que faço o que gosto, assim, com bastante cuidado e profissionalismo, dá pra conciliar. É um momento de maturidade. Como diz a música de Roberto Carlos: "É preciso saber viver". Já os navegadores antigos diziam: "Navegar é preciso, viver é impreciso". E Cleise Mendes (LA – Dramaturga e Escritora) emenda: "A liberdade tece o fio de sua renda, navegar é preciso... que se aprenda". E vivendo, "estamos em pleno mar."...
LA - Você, de uma maneira ou de outra, também está ligado a projetos que envolvem música e poesia... São duas outras expressões artísticas que tocam a tua alma?
Jackson Costa - Literalmente, música e poesia tocam a minha alma! Gosto da palavra e o teatro vem revelando para mim a música que há na palavra. O poema não precisa necessariamente de uma base musical para ser falado, mas também, ele não a exclui. O poema é agregador, convive, ilumina, desperta... O poema é a forma literária que mais me identifico e que mais diz quem eu sou, de onde eu vim e para onde eu vou. E é para isso que eu vivo: para me conhecer. A poesia vem do alto e é para ela que eu caminho. Eu sou o Poema em Linha Reta (de Fernando Pessoa), o Cão Sem Plumas (de João Cabral de Melo Neto), O poema e a música Língua (de Caetano Veloso), o Prosoema Procê Ará (de Ramon Vane), o Navio Negreiro (de Castro Alves), sou A Máquina do Mundo (de Drummond)... A música e a poesia amenizam a minha dor.
Cena com o grupo Los Catedrásticos / Divulgação
LA - Novos projetos para 2013?
Jackson Costa - Continuar com Los Catedrásticos, com o Aprovado, fazer coisas boas na TV, dizer bastante poesia, brincar de fazer cinema com uma câmera que comprei e montar um espetáculo para celebrar os meus trinta anos de carreira. Plantar coisas boas para ter boas colheitas. Enfim, sou um operário da arte em busca de um dia viver na sábia calmaria de um Dorival Caymmi, mas sei que ainda tenho que ralar muito, talvez algumas encarnações, até chegar nesse grau que a meu ver é superior.
Jackson Costa, que traz no currículo personagens em várias peças de teatro, filmes, telenovelas e minisséries, experiências em direção artítica, gravação de CD onde interpreta poesias, é apresentador do programa Aprovado da Rede Bahia e vem atuando com o grupo Los Catedrásticos no espetáculo Nova Mente (ao lado dos atores Ricardo Bittencourt, Maria Menezes e Cyria Coentro - Direção de Paulo Dourado). Está também no elenco da telenovela Gabriela da Rede Globo, onde interpreta o jornalista Douglas, além de protagonizar comerciais e atuar como Mestre de Cerimônias e poeta declamador em diversos eventos de vários segmentos.
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Comentários
LA - Obrigada, Regina de Castro, por acessar a Linha da Arte.
LA - Obrigada, Eleonora, por acessar a Linha da Arte através da entrevista com o ator Jackson Costa na seção Falas Possíveis.