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CARTA ABERTÍSSIMA...

(para os senhores e senhoras que querem assumir a Prefeitura de Salvador...)

 

Salvador, numa tarde de agosto, "pseudoinverno" desta terra, "...porque hoje é sábado..."...

 

Caríssimos,

O que há agora em Salvador nas expressões artísticas, para além de Gregório de Matos, do ícone Jorge Amado, da Bienal da Bahia (1ª Bienal Nacional de Artes Plásticas), passando pelos primeiros passos dos tropicalistas, pelo êxito de Glauber Rocha em Cannes, pelo tempo áureo do Reitor Edgar Santos na Universidade Federal da Bahia com o surgimento e dinamismo das Escolas de Teatro, de Dança e de Música?

O que estamos fazendo desde então?

Do final da década 70 do século XX pra cá, atores, músicos, dançarinos, artistas visuais, escritores, cineastas, videomakers, performers, produtores artísticos, técnicos em espetáculos, seres da arte de várias origens e talentos, por intuição e necessidade, já vêm atuando dentro da chamada economia criativa, usando aqui uma palavrinha da vez, muito antes desse conceito ficar na moda...

Desenvoltos em suas expertises, exercitando a criatividade e a imaginação para produzir e distribuir os seus serviços, há artistas e arte para todos os gostos na "Cidade da Baía"... Viver dessa arte em São Salvador, eis a questão...

Muitos artistas, nos naturais e legítimos caminhos da individuação, ganham mundo, neste ou naquele contexto, e passam a viver muito bem das suas artes. Aliás, esta é a "ralação" desejada por todos: trabalho e remuneração "justa" é o ideal de artistas profissionais e quaisquer outros cidadãos de todos os segmentos. Mas a realidade não é bem essa...

Desafio dialético: é preciso navegar com simplicidade e objetividade nos mares complexos da cultura em Salvador... Em expressões artísticas, então, urge!...

Avançar!!!

Desfazer o que de bom a gestão anterior fez, somente porque é de outro alinhamento político-partidário, nunca teve cabimento. Embora, no caso de Salvador, nesta gestão que vai terminar, onde encontrar política pública para as atividades artísticas? "Que dirá" algo de bom? Mas este é um dos entraves principais desta cidade: avança dez passos e volta uns tantos para trás. Chega disso!

Avançar!!!

Repetir as mesmas reflexões (numa espécie de "eterno retorno" nietzschiano), reduzir as problematizações da área às ideias de meia dúzia de artistas com cabeças "coronelizadas" e/ou, por outro lado, superestimar reivindicações pueris de artistas "pseudorebeldes sem causa" são caminhos perigosos, repetitivos e estéreis...

Há artistas maravilhosos em todas as expressões nesta terra, todos sabemos! Muitos já ganharam o mundo... Há muitos e muitos que não querem morar fora de Salvador, mas aqui viverem, com dignidade, sempre em intercâmbio com este mundo de meu Deus...

É preciso navegar nos caminhos da comunicação, onde artistas de Salvador conheçam artistas de Salvador das diversas expressões (muitos ficam nos seus guetos e desconhecem os pares), onde a população de Salvador possa cada vez mais conhecer artistas de teatro, de dança, de circo, de cinema, de música dos vários circuitos e não somente o "circuito multidão"/business, onde empresários saibam que existem artistas excepcionais que ainda não estão nas grandes redes abertas de comunicação, nem nas grandes revistas semanais, mas trazem nos seus currículos, profissionalismo, grande valor estético e grandes trabalhos realizados...

Não creio, senhores e senhoras, que artistas e produtores artísticos devam ficar esperando o Estado, seja na instância municipal, estadual ou federal, para a realização dos seus projetos. É preciso que artistas e afins invistam em conhecimento, criatividade e trabalho e não fiquem "mamando nas tetas" estatais eternamente... Mas o Estado tem obrigação de dotar um orçamento mais digno para a cultura e de implementar políticas públicas em prol do coletivo que não dependam do bel prazer dessa ou daquela gestão político-partidária e que pensem, inclusive, nos artistas amadores, nas experimentações dos artistas profissionais que não estão atrás de lucros mas de provocações estéticas tão fundamentais para a compreensão de nossa identidade... Políticas que permaneçam e evoluam trazendo desenvolvimento para todos nós...

Cultura é um termo amplo que abrange várias atividades humanas, incluindo as artísticas. Finalizo esta carta "escancarada", senhores e senhoras "prefeituráveis", fazendo um pedido: honrem as origens da palavra cultura – cuidar, cultivar...

 

Maria Prado de Oliveira é artista (atriz), produtora artística, escritora, webwriter da Linha da Arte, com formação em Filosofia.

 

Comentários

 
0 #1 Carlos Barros 04-08-2012 20:52
Uma carta necessária: coerente e coesa a partir de um olhar holístico da/sobre a cultura.
Temos que fazer e ter condições/contextos que favoreçam minimamente a receptividade das expressões. Dançar, cantar, pular, orar para todos que queiram conhecer. Motivar a cidade a cumprir sua função de ser ABERTA, como chamava o saudoso Saul Barbosa, a Bahia.
Um prazer grande de refletir sobre as palavras deste texto.
E num sábado.. dia de alegria!
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